Um estudante do primeiro período de Direito, em Maceió, colocou no ar um sistema de inteligência artificial que faz o caminho inverso do que o mercado oferece aos advogados. Em vez de entregar modelos prontos, o sistema, batizado de Publish Law, estuda o que cada advogado já escreveu e aprende a escrever como ele, preservando o que o autor chama de “DNA jurídico”: a estrutura, o vocabulário e o tom que cada profissional imprime nas próprias peças. O autor é Júnior Lima, empresário de tecnologia à frente da PublishX, que entrou na faculdade em 2026 e desenvolveu a plataforma entre as aulas e o trabalho.
A queixa que virou projeto
A ideia nasceu antes da faculdade, de uma queixa repetida. Há anos atendendo escritórios como fornecedor de tecnologia, Júnior via advogados testarem ferramentas de inteligência artificial, gostarem da velocidade e devolverem tudo pelo mesmo motivo: o texto não parecia deles. "Cada advogado tem uma forma de abrir uma contestação, de organizar os fatos, de fechar um pedido. Um sistema que ignora isso obriga o profissional a reescrever tudo. Eu queria um que respeitasse a assinatura de quem assina", explica.
O que faltava, segundo ele, não era técnica. Era entender por dentro o que o advogado faz e por que cada documento é do jeito que é. Foi isso que o levou a se matricular no curso de Direito em 2026. "Eu já fazia tecnologia para empresas há anos. O que o curso me deu foi entender o raciocínio por trás da peça. Um aluno do primeiro período não tem a experiência do professor, mas tem tempo de estudar o problema, e foi isso que eu fiz."
O que é o “DNA jurídico”
A expressão resume a tese do projeto: dois advogados diante do mesmo caso escrevem peças diferentes, e essa diferença não é um defeito a ser corrigido, é a identidade profissional de cada um. O sistema lê o acervo que o advogado já produziu ao longo da carreira e extrai dele essa identidade, por tipo de documento. Quando o advogado pede um texto novo, o rascunho sai com a voz dele, e o que precisa de conferência vem apontado. "Nada sai como verdade absoluta. O sistema escreve, aponta onde precisa de conferência e o advogado decide. A responsabilidade continua sendo de quem assina, e é assim que tem de ser", diz o fundador.
"O advogado não precisa ensinar nada. Ele só continua trabalhando do jeito dele. Quem se adapta é o sistema."Júnior Lima, fundador do Publish Law
Construído entre as aulas
O desenvolvimento aconteceu durante o primeiro semestre do curso, à noite e nos intervalos do trabalho na PublishX. Júnior conta que as primeiras disciplinas, as que ensinam a ler, fichar e argumentar, mudaram a forma do produto. Cada aula virava uma pergunta para o sistema: como o advogado estrutura um argumento, de onde tira a autoridade de uma citação, por que um parágrafo abre com o fato e outro com a lei.
Dois advogados de Maceió, com OAB ativa, usam o sistema desde o início de setembro: Lucas Açucena e Mikael Lima, apresentados mais abaixo. São eles que apontam, na rotina real do escritório, o que funciona e o que ainda precisa mudar.
Da sala de aula para o mercado
Ele diz que o objetivo agora é levar o sistema aos professores e aos colegas de turma que já advogam. "A faculdade está formando gente que vai trabalhar em um mercado diferente do de dez anos atrás. Se um aluno do primeiro período consegue construir uma ferramenta que advogado de verdade usa todo dia, imagina o que a turma inteira pode fazer até o décimo."

